Ensaio sobre a cegueira, do premiado escritor português José Saramago, é uma leitura que eu vinha planejando há algum tempo. Inúmeras pessoas já haviam me recomendado este livro, sempre seguido da frase: esse livro é incrível. Por isso, coloquei na minha cabeça que precisava lê-lo logo e após ganhá-lo de presente no Natal, tratei de fazer dele minha primeira leitura de 2017. Não poderia ter escolhido livro melhor para começar meu ano e explicarei o motivo. 
Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardado em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". 
Para começar, o que mais me chamou a atenção nesse livro assim que comecei minha leitura foi a linguagem. A edição da Companhia das Letras, mostrada na foto acima, manteve a grafia vigente em Portugal e isso foi algo que, inicialmente, estranhei muito. Não falo no sentido negativo, pelo contrário, procuro enfatizar a experiência incrível de ler algo com a grafia portuguesa. Em inúmeros momentos parei a leitura, li determinado trecho em voz alta procurando entendê-lo, procurava o significado de palavras que desconhecia ou com uso diferente do nosso, etc. A opção de manter a grafia original deu ao livro outro ar e eu me peguei pensando como o português é, de fato, um idioma lindo e rico em todas as suas variantes.

Passando para a história em si, nunca havia lido algo parecido e duvido que algum dia irei. De uma narrativa extremamente envolvente, o leitor se verá entregue à tragédia da epidemia da cegueira, teorizando sobre o surgimento da mesma e suas possibilidades de cura. O mesmo se encontrará pensando se faria o mesmo que os personagens ou tomando as mesmas decisões que o governo. Os personagens não recebem nomes, sendo chamados pelo narrador como a mulher do médico, o médico, a mulher dos óculos escuros, o menino estrábico, etc. A ausência de nomes próprios não é por acaso e nem devemos pensar nela como tal. O porquê é dever do leitor descobrir. Se tratando de José Saramago, devemos sempre questionar e não simplesmente aceitar. 
Dentro de nós há um coisa que não tem nome,  essa coisa é o que somos. 
O autor não mede escrúpulos para tratar da natureza humana. Não busca tratá-la com delicadeza - ou até mesmo idealizá-la -, mas mostra sua verdade nua e crua. Algumas partes são tão cruas, tão ausentes de ficção e repletas de realidade, que, como leitora, meu sentimentalismo foi posto à prova e me senti extremamente mal lendo-as. No entanto, isso não desclassifica a história, pelo contrário, só mostra o quão honesto o autor foi ao retratar a essência humana. Diante disso, não devemos sentir muito pelo livro, mas por nós mesmos. 

A questão humana se faz presente a todo momento, afinal, é o centro de onde gravitam todas as questões propostas pela história. Ouso dizer que é a natureza humana a verdadeira protagonista. À ela, a cegueira se alinha, construindo uma das metáforas mais sensacionais da literatura. Repito que, tratando-se de Saramago, o leitor tem de estar sempre disposto a questionar afim de reconhecer suas verdadeiras intenções por trás de determinado acontecimento. 

Ler Samarago é uma experiência rica a que todos deveriam se submeter um dia. Não tenham duvidas que outras obras do autor entraram rapidamente para minhas metas de leitura - espero conseguir lê-las ainda esse ano. Ensaio sobre a cegueira é um livro que tem tanto a oferecer ao seu leitor que merece ser degustado com todo cuidado, toda a atenção possível. Faltam-me palavras para fazer jus à essa obra. Esplêndido e espetacular são adjetivos que se aproximam de sua grandeza. E assim, eu me junto à parcela da população que diz: você precisa ler esse livro

Titulo: Ensaio sobre a cegueira
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 310
Nota: 5/5

4 Comentários

  1. "Todo escritor tem um(a) leitor(a) imaginário(a)". A Rebecca é a leitora que todo escritor gostaria de ter! Começou bem o ano com a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Análise precisa, sem entregar tudo aos seus leitores do "Comodevorarlivros". Fico Feliz em saber que essa grande devoradora de livros continua ativa e cada vez melhor! Um grande abraço, esperando outras leituras! Sérgio Costa.

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    1. Boa noite, professor!
      Como fico honrada em tê-lo por aqui e mais ainda com este comentário lindo (quase chorei)! Muito obrigada, saudade das suas aulas!

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  2. Pelo pouco que relatou na resenha parece muito com o filme A Cegueira, já assistiu? Se for mesmo, a estória mostra uma falta de humanidade mais não tira a boa qualidade da obra, o enredo é envolvente. Amei!

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    1. Oi, Nayane! Esse filme é uma adaptação do livro! :D
      Ainda não o assisti, mas espero que tenha no Netflix! XD

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